Infância: uma
história que não tem fim
Começarei escrevendo sobre a infância. Aliás, como toda
história tem um começo e todo adulto foi criança, falar sobre a infância é
falar sobre o início de um continuum
que é a vida. Tudo que foi vivido até aqui, de uma forma ou de outra, constitui
o que se é. Por isso, a infância é uma fase que precisa de especial atenção,
principalmente pelo fato de que são os adultos que, através do modo como veem e
interagem com a criança, ajudam a contar sua história.
Muito do que você sabe hoje sobre você foi contado por
aqueles que te viram crescer. Não te deram apenas um nome, mas também muitas
características. Pode ser que hoje você discorde de algumas delas. Isto porque
pode pensar sobre si mesmo (a) e sobre sua relação com os outros. Mas quando
criança isso é muito mais difícil. Como se diz por aí, os pequenos absorvem
tudo como uma esponja. Por isso precisamos tomar cuidado com o que dizemos
perto deles e sobre eles. Mas também não adianta pedir pra saírem ou cochichar
sobre algum comportamento “errado” que tiveram, porque até o que não é dito, de
alguma forma é percebido.
Então, se você é mãe ou pai já deve ter se perguntado: “Devo
falar tudo que percebo sobre meu filho (a) na frente dele (a), ou jamais
falar?”. A questão não está em falar o que se pensa, mas na própria percepção
que vai sendo construída sobre a criança. E aí está importante parte na
constituição de uma pessoa. Não vivemos olhando para um espelho o tempo todo,
são os outros que nos olham e testemunham nossos gestos, palavras e expressões.
Se, por exemplo, uma criança bate, empurra, morde ou grita, se desobedece a uma
ordem, ou manifesta qualquer outra forma de agressividade, tende-se a chamar sua
atenção pelo ato inadequado e corrigi-la. Mas, se o comportamento persiste, a
tendência é atribuir a ela características de impulsividade e hiperatividade,
entre outras. Torna-se uma “criança-problema” pela descrição de seus
comportamentos.
Que imagem esta criança terá de si mesma? Possivelmente,
será uma autoimagem destrutiva. E, em consequência, suas atitudes continuarão a
corresponder a estas ideias e autoconceitos. Mas, se, ao invés de nos
atentarmos somente ao que os olhos testemunham, e abrirmos também os ouvidos àquilo
que a criança quer dizer com sua agressividade, a compreensão se ampliará e as
possibilidades de mudança também. A linguagem infantil se expressa de uma forma
muito particular, a qual precisamos aprender a decifrar. E isso será possível
se, além de testemunhar comportamentos, formos também testemunhas de motivos e
intenções – o que facilitará o protagonismo de quem vive a história de uma
infância.