sábado, 22 de abril de 2017

A criança diagnosticada: uma questão de olhar

O nascimento de um filho é acompanhado por expectativas, desejos, medos e tantos outros sentimentos, que não ao acaso, decorrem das experiências anteriores daqueles que se tornam pai e mãe. Estes constroem, ao longo da gestação, uma imagem sobre a criança que se forma: desde a cor dos cabelos até o temperamento. O bebê, que não é simplesmente a metade de sua mãe e a outra de seu pai, mas se constitui como um novo ser, com características e necessidades específicas, nasce com a responsabilidade de corresponder às idealizações daqueles.
À medida que a criança cresce, seu corpo pode não mais comportar as vestes que lhe foram atribuídas, e aquilo que é “indesejado” começa a aparecer, principalmente na fase escolar. Agressividade, indisciplina, apatia ou dificuldades de aprendizagem. É claro que estes problemas têm causas diversas e não podem ser reduzidos a apenas uma de suas faces. Mas alguns pais se questionam: “Onde foi que eu errei?”, e muitos recorrem à medicina, na tentativa de encontrar um porquê e um remédio para o que está em desacordo com o esperado.
Com a disseminação de diagnósticos psiquiátricos e o crescimento da indústria farmacêutica, muitos pais, professores e profissionais da saúde encontraram no TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade), na dislexia e na depressão, entre outros, uma resposta. Esse movimento de medicalização dos problemas escolares poderia ser uma boa solução se estes decorressem exclusivamente de uma falha biológica.

Winnicott (1896-1971), pediatra e teórico sobre o desenvolvimento infantil, atendeu crianças que apresentavam diversos tipos de comportamentos desviantes e mostrou que estes eram “um pedido de socorro”, a manifestação de um sofrimento que não era dito. Enurese noturna, dificuldades na fala e na escrita, agressividade, e muito do que ocorre rotineiramente em sala de aula, pode ser uma tentativa da criança, ainda que inconsciente, de ser olhada, olhada em suas necessidades, em sua singularidade - não uma disfunção orgânica. E esta pode ser uma ótima oportunidade para nós, adultos, nos desprendermos de nossos afazeres, preocupações e expectativas, e nos atentarmos àquilo que é necessário para o bom desenvolvimento infantil: os fazeres, desejos, necessidades e expectativas daquela criança real. 

segunda-feira, 27 de julho de 2015

FÉRIAS: o que fazer?

Este pode ser um momento mais que oportuno para ajudar as crianças e serem crianças! O que oferecemos a elas nesse período pode ficar na memória e mudar a história dos pequenos.
Não estou falando de coisas extraordinárias, mas da criatividade, da espontaneidade e, sobretudo, da disponibilidade interna dos adultos para fazerem destas as melhores férias de seus filhos, como se fossem as únicas.
E se os adultos não estão de férias, é possível reorganizar a rotina, tornando cada tarefa uma brincadeira.

Algumas dicas:

- Faça uma receita na cozinha e deixe sua filha, ou filho, participar como auxiliar ou chefe (de acordo com as possibilidades de cada faixa etária);
- Abra suas portas aos amigos do seu filho, e também permita que ele vá à casa de colegas, e se ele não tiver muitos amigos, é uma boa ocasião para facilitar a interação entre as crianças;
- Relembre suas brincadeiras de infância e também aprenda as brincadeiras de hoje, os jogos e aplicativos que tão rapidamente se infiltram no dia-a-dia das crianças;
- Uma sessão de cinema em casa ou um piquenique no quintal poderão ser uma festa, principalmente se a criançada estiver reunida;
- Aproveite para ajudar seu filho a desenvolver habilidades e superar dificuldades escolares. O famoso "aprender brincando" pode ser o gatilho para um aprendizado mais proveitoso ao voltar às aulas.

Crianças criam suas próprias brincadeiras, e elas ficam mais divertidas quando há convívio com outras crianças. Em tempos de distanciamento entre vizinhos e isolamento virtual, a dica principal é incentivar a interação - tão necessária para o bom desenvolvimento.

OBS.: Crianças que não brincam, podem estar precisando de ajuda. Atente-se à capacidade do seu filho para se divertir, porque, afinal, "brincadeira é coisa séria".

Bruna Andressa da Silva
Psicóloga
Contato: (11) 9 6474-6386
brunandsilva@gmail.com

segunda-feira, 29 de junho de 2015


A “criança-problema”: um problema de quem?

Quem trabalha ou convive com crianças em algum momento já ouviu ou disse frases, como: “Esse menino é terrível”, “Só causa problemas”, “Parece um furacão”, e por aí vai. Movidos pela angústia de não saber o que fazer e cansados de tantas reclamações (dos professores, vizinhos e parentes), muitos pais buscam uma explicação para o que acontece com seus filhos, e encontram nos discursos médicos uma resposta que alivia a culpa que sentem. João, Lucas, Mateus, entre tantos outros meninos e meninas, deixam seus próprios nomes e passam a responder: “Eu me chamo Hiperatividade”. Nas escolas, fazem parte de um grupo igual, cujas características são: a indisciplina, a agressividade, o enfrentamento e a falta de interesse pelas atividades que lhes são impostas. Estas são as “crianças-problema”, que tantos problemas causam a uma sociedade saturada de problemas.
E de quem é a culpa? A palavra culpa sugere que haverá punição para quem transgrediu uma lei, norma ou padrão de comportamento. É um erro pensar que essas crianças nasceram assim, “defeituosas”, ou que são simplesmente resultado da educação dada por seus pais. Estes têm culpabilizado seus filhos, e a sociedade têm culpabilizado os pais.
Sabemos que nenhuma criança é igual a outra. Primeiro, porque geneticamente são diferentes. Segundo, porque são influenciadas pelo ambiente em que vivem. E terceiro, mesmo aqueles gêmeos idênticos, que cresceram na mesma casa, com as mesmas pessoas, percebem de forma única suas experiências e, portanto, reagem de modo diferente.
A famosa frase “toda ação gera uma reação” pode ser empregada para compreendermos que se a criança é mais ou menos agitada e agressiva, se é passiva ou ativa, depende das interações que são estabelecidas entre ela e o meio (pais, irmãos, professores, amigos etc). É preciso estar atento também às peculiaridades do mundo infantil. Se as complexidades do mundo adulto, como as crises conjugais, as instabilidades financeiras, as violências da sociedade e os problemas escolares são difíceis para quem é “gente grande”, muito mais o são para os pequenos. Eles não compreendem o mundo como nós. Nesse sentido, pode haver um sofrimento incompreendido por trás de um gesto agressivo ou uma apatia, aparentemente, sem motivo.

Fica difícil encontrar um culpado quando todos estamos implicados nas situações que nos cercam. Apontar a hiperatividade, o déficit de atenção e a dislexia, por exemplo, como, exclusivamente, disfunções biológicas, seria como ver a ponta de um iceberg e achar que se vê o todo. 

Bruna Andressa da Silva
Psicóloga - CRP: 06/123261
Contato: (11) 96474-6386
brunandsilva@gmail.com

terça-feira, 9 de junho de 2015

PSICOTERAPIA INFANTIL: quando e por que fazer?

A concepção de infância como uma fase do desenvolvimento, com características e necessidades específicas, nem sempre existiu. Por muito tempo as crianças foram tidas como “adultos em miniatura”. Deveriam trabalhar, se portar e arcar com as responsabilidades do mundo adulto. Desta forma, as suas necessidades físicas, psicológicas, sociais e afetivas não eram consideradas.
 Hoje, sabemos que as crianças precisam de cuidados especiais para se desenvolverem. Estímulo, afeto e limite fazem parte das responsabilidades de quem cuida, mas o modo como a criança percebe e interage com o meio pode ser influenciado por vários fatores. Os acontecimentos da vida adulta, como o trabalho, as crises financeiras, os conflitos familiares, separação entre os pais, mudanças, entre outros, podem afetar as crianças de modo peculiar — o que requer especial atenção.





Alguns comportamentos podem indicar que a criança precisa de ajuda, como:
· Agressividade
· Impulsividade
· Apatia / desinteresse                               
· Enurese noturna
· Mentiras, manias e tiques
· Dores (na barriga ou cabeça, por exemplo) sem causa física
· Medos, fobias e evitações 
· Pesadelos recorrentes

Na fase escolar podem surgir dificuldades de:
· Memória
· Concentração
· Aprendizagem
· Comportamento
· Socialização

Uma investigação cuidadosa e um manejo adequado podem melhorar o rendimento escolar da criança e auxiliar no desenvolvimento de suas potencialidades. Por isso, pais, professores e aqueles que convivem com crianças devem estar atentos a estes e outros “sinais” que elas comunicam como “pedido de ajuda”.
O psicólogo é o profissional apto a investigar este pedido. Sua intervenção é pautada em procedimentos de psicodiagnóstico, que avaliam, através de entrevistas e testes psicológicos, as condições da criança e a melhor orientação para cada caso.
O espaço terapêutico favorece, através do brincar, a expressão do mundo interno da criança e a elaboração de seus conflitos. E, em todo o processo, a participação dos pais/responsáveis é fundamental para a evolução da criança.

Bruna Andressa da Silva
Psicóloga - CRP: 06/123261
Contato: (11) 96474-6386
brunandsilva@gmail.com


quarta-feira, 27 de maio de 2015

Infância: uma história que não tem fim

Começarei escrevendo sobre a infância. Aliás, como toda história tem um começo e todo adulto foi criança, falar sobre a infância é falar sobre o início de um continuum que é a vida. Tudo que foi vivido até aqui, de uma forma ou de outra, constitui o que se é. Por isso, a infância é uma fase que precisa de especial atenção, principalmente pelo fato de que são os adultos que, através do modo como veem e interagem com a criança, ajudam a contar sua história.
Muito do que você sabe hoje sobre você foi contado por aqueles que te viram crescer. Não te deram apenas um nome, mas também muitas características. Pode ser que hoje você discorde de algumas delas. Isto porque pode pensar sobre si mesmo (a) e sobre sua relação com os outros. Mas quando criança isso é muito mais difícil. Como se diz por aí, os pequenos absorvem tudo como uma esponja. Por isso precisamos tomar cuidado com o que dizemos perto deles e sobre eles. Mas também não adianta pedir pra saírem ou cochichar sobre algum comportamento “errado” que tiveram, porque até o que não é dito, de alguma forma é percebido. 
Então, se você é mãe ou pai já deve ter se perguntado: “Devo falar tudo que percebo sobre meu filho (a) na frente dele (a), ou jamais falar?”. A questão não está em falar o que se pensa, mas na própria percepção que vai sendo construída sobre a criança. E aí está importante parte na constituição de uma pessoa. Não vivemos olhando para um espelho o tempo todo, são os outros que nos olham e testemunham nossos gestos, palavras e expressões. Se, por exemplo, uma criança bate, empurra, morde ou grita, se desobedece a uma ordem, ou manifesta qualquer outra forma de agressividade, tende-se a chamar sua atenção pelo ato inadequado e corrigi-la. Mas, se o comportamento persiste, a tendência é atribuir a ela características de impulsividade e hiperatividade, entre outras. Torna-se uma “criança-problema” pela descrição de seus comportamentos.
Que imagem esta criança terá de si mesma? Possivelmente, será uma autoimagem destrutiva. E, em consequência, suas atitudes continuarão a corresponder a estas ideias e autoconceitos. Mas, se, ao invés de nos atentarmos somente ao que os olhos testemunham, e abrirmos também os ouvidos àquilo que a criança quer dizer com sua agressividade, a compreensão se ampliará e as possibilidades de mudança também. A linguagem infantil se expressa de uma forma muito particular, a qual precisamos aprender a decifrar. E isso será possível se, além de testemunhar comportamentos, formos também testemunhas de motivos e intenções – o que facilitará o protagonismo de quem vive a história de uma infância.


Bruna Andressa da Silva
Psicóloga - CRP: 06/123261
Contato: (11) 96474-6386
brunandsilva@gmail.com