A “criança-problema”: um problema de quem?
Quem trabalha ou convive com crianças em algum momento já
ouviu ou disse frases, como: “Esse menino é terrível”, “Só causa problemas”,
“Parece um furacão”, e por aí vai. Movidos pela angústia de não saber o que
fazer e cansados de tantas reclamações (dos professores, vizinhos e parentes),
muitos pais buscam uma explicação para o que acontece com seus filhos, e
encontram nos discursos médicos uma resposta que alivia a culpa que sentem.
João, Lucas, Mateus, entre tantos outros meninos e meninas, deixam seus próprios
nomes e passam a responder: “Eu me chamo Hiperatividade”. Nas escolas, fazem parte
de um grupo igual, cujas características são: a indisciplina, a agressividade,
o enfrentamento e a falta de interesse pelas atividades que lhes são impostas.
Estas são as “crianças-problema”, que tantos problemas causam a uma sociedade
saturada de problemas.
E de quem é a culpa? A palavra culpa sugere que haverá
punição para quem transgrediu uma lei, norma ou padrão de comportamento. É um
erro pensar que essas crianças nasceram assim, “defeituosas”, ou que são
simplesmente resultado da educação dada por seus pais. Estes têm culpabilizado
seus filhos, e a sociedade têm culpabilizado os pais.
Sabemos que nenhuma criança é igual a outra. Primeiro,
porque geneticamente são diferentes. Segundo, porque são influenciadas pelo
ambiente em que vivem. E terceiro, mesmo aqueles gêmeos idênticos, que
cresceram na mesma casa, com as mesmas pessoas, percebem de forma única suas
experiências e, portanto, reagem de modo diferente.
A famosa frase “toda ação gera uma reação” pode ser
empregada para compreendermos que se a criança é mais ou menos agitada e
agressiva, se é passiva ou ativa, depende das interações que são estabelecidas
entre ela e o meio (pais, irmãos, professores, amigos etc). É preciso estar
atento também às peculiaridades do mundo infantil. Se as complexidades do mundo
adulto, como as crises conjugais, as instabilidades financeiras, as violências
da sociedade e os problemas escolares são difíceis para quem é “gente grande”,
muito mais o são para os pequenos. Eles não compreendem o mundo como nós. Nesse
sentido, pode haver um sofrimento incompreendido por trás de um gesto agressivo
ou uma apatia, aparentemente, sem motivo.
Fica difícil encontrar um culpado quando todos estamos
implicados nas situações que nos cercam. Apontar a hiperatividade, o déficit de
atenção e a dislexia, por exemplo, como, exclusivamente, disfunções biológicas,
seria como ver a ponta de um iceberg
e achar que se vê o todo.
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