segunda-feira, 29 de junho de 2015


A “criança-problema”: um problema de quem?

Quem trabalha ou convive com crianças em algum momento já ouviu ou disse frases, como: “Esse menino é terrível”, “Só causa problemas”, “Parece um furacão”, e por aí vai. Movidos pela angústia de não saber o que fazer e cansados de tantas reclamações (dos professores, vizinhos e parentes), muitos pais buscam uma explicação para o que acontece com seus filhos, e encontram nos discursos médicos uma resposta que alivia a culpa que sentem. João, Lucas, Mateus, entre tantos outros meninos e meninas, deixam seus próprios nomes e passam a responder: “Eu me chamo Hiperatividade”. Nas escolas, fazem parte de um grupo igual, cujas características são: a indisciplina, a agressividade, o enfrentamento e a falta de interesse pelas atividades que lhes são impostas. Estas são as “crianças-problema”, que tantos problemas causam a uma sociedade saturada de problemas.
E de quem é a culpa? A palavra culpa sugere que haverá punição para quem transgrediu uma lei, norma ou padrão de comportamento. É um erro pensar que essas crianças nasceram assim, “defeituosas”, ou que são simplesmente resultado da educação dada por seus pais. Estes têm culpabilizado seus filhos, e a sociedade têm culpabilizado os pais.
Sabemos que nenhuma criança é igual a outra. Primeiro, porque geneticamente são diferentes. Segundo, porque são influenciadas pelo ambiente em que vivem. E terceiro, mesmo aqueles gêmeos idênticos, que cresceram na mesma casa, com as mesmas pessoas, percebem de forma única suas experiências e, portanto, reagem de modo diferente.
A famosa frase “toda ação gera uma reação” pode ser empregada para compreendermos que se a criança é mais ou menos agitada e agressiva, se é passiva ou ativa, depende das interações que são estabelecidas entre ela e o meio (pais, irmãos, professores, amigos etc). É preciso estar atento também às peculiaridades do mundo infantil. Se as complexidades do mundo adulto, como as crises conjugais, as instabilidades financeiras, as violências da sociedade e os problemas escolares são difíceis para quem é “gente grande”, muito mais o são para os pequenos. Eles não compreendem o mundo como nós. Nesse sentido, pode haver um sofrimento incompreendido por trás de um gesto agressivo ou uma apatia, aparentemente, sem motivo.

Fica difícil encontrar um culpado quando todos estamos implicados nas situações que nos cercam. Apontar a hiperatividade, o déficit de atenção e a dislexia, por exemplo, como, exclusivamente, disfunções biológicas, seria como ver a ponta de um iceberg e achar que se vê o todo. 

Bruna Andressa da Silva
Psicóloga - CRP: 06/123261
Contato: (11) 96474-6386
brunandsilva@gmail.com

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