A criança diagnosticada: uma questão de olhar
O nascimento de um filho é acompanhado por expectativas,
desejos, medos e tantos outros sentimentos, que não ao acaso, decorrem das experiências
anteriores daqueles que se tornam pai e mãe. Estes constroem, ao longo da
gestação, uma imagem sobre a criança que se forma: desde a cor dos cabelos até
o temperamento. O bebê, que não é simplesmente a metade de sua mãe e a outra de
seu pai, mas se constitui como um novo ser, com características e necessidades
específicas, nasce com a responsabilidade de corresponder às idealizações
daqueles.
À medida que a criança cresce, seu corpo pode não mais
comportar as vestes que lhe foram atribuídas, e aquilo que é “indesejado”
começa a aparecer, principalmente na fase escolar. Agressividade, indisciplina,
apatia ou dificuldades de aprendizagem. É claro que estes problemas têm causas
diversas e não podem ser reduzidos a apenas uma de suas faces. Mas alguns pais
se questionam: “Onde foi que eu errei?”, e muitos recorrem à medicina, na
tentativa de encontrar um porquê e um remédio para o que está em desacordo com
o esperado.
Com a disseminação de diagnósticos psiquiátricos e o
crescimento da indústria farmacêutica, muitos pais, professores e profissionais
da saúde encontraram no TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com
Hiperatividade), na dislexia e na depressão, entre outros, uma resposta. Esse
movimento de medicalização dos problemas escolares poderia ser uma boa solução
se estes decorressem exclusivamente de uma falha biológica.
Winnicott (1896-1971), pediatra e teórico sobre o
desenvolvimento infantil, atendeu crianças que apresentavam diversos tipos de
comportamentos desviantes e mostrou que estes eram “um pedido de socorro”, a
manifestação de um sofrimento que não era dito. Enurese noturna, dificuldades
na fala e na escrita, agressividade, e muito do que ocorre rotineiramente em
sala de aula, pode ser uma tentativa da criança, ainda que inconsciente, de ser
olhada, olhada em suas necessidades, em sua singularidade - não uma disfunção
orgânica. E esta pode ser uma ótima oportunidade para nós, adultos, nos
desprendermos de nossos afazeres, preocupações e expectativas, e nos atentarmos
àquilo que é necessário para o bom desenvolvimento infantil: os fazeres,
desejos, necessidades e expectativas daquela criança real.

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